Fala de Dilma Rousseff do Partido dos Trabalhadores (PT) em entrevista ao Canal Energia no dia 11/06/2010:
“Portanto, a minha experiência no setor é que a política de geração de energia elétrica no Brasil deve sempre priorizar, como fizemos no governo Lula, a modicidade tarifária, a segurança do abastecimento e uma matriz energética renovável. Lembro que cerca de 47% de toda a energia que produzimos no Brasil são provenientes de fontes renováveis, com destaque para a hidreletricidade, os biocombustíveis e as energias alternativas – biomassa, pequenas centrais hidrelétricas e eólicas.”
Sobre a fala da presidenciável, os comentários que serão feitos a seguir darão ao leitor uma
visão do que foram estes quase oito anos do Governo Lula e do legado que deixa para o seu sucessor que, aliás, pode vir a ser inclusive a própria ex-Ministra Dilma Rousseff.
Importante é salientar que uma nova usina de geração de energia elétrica de grande porte tem um tempo de implantação de 4 a 5 anos, daí se ter os Leilões A-5 quando se contrata energia das novas usinas com uma antecedência de 5 anos para que possamos contar com esta energia na data na qual o mercado a requer. Assim, podemos dizer que o próximo governante terá que conviver com os erros e acertos do Governo Lula, da mesma forma que o Governo Lula, no seu primeiro mandato (2003-2006), conviveu com a herança deixada pelo Governo Fernando Henrique no que tange ao abastecimento de energia elétrica para o País.
Existem algumas semelhanças nos acontecimentos finais destes governos.
O Governo Fernando Henrique teve que conviver com uma grande crise no penúltimo ano do seu governo (2001), provocada pelo racionamento de energia elétrica no país, causado principalmente pelo atraso na tomada de decisão na implementação de obras de geração de energia elétrica que não entraram em operação a tempo de evitar o racionamento. Na época os economistas diziam que o racionamento iria provocar grave recessão na economia brasileira. Entretanto, apesar da falha no planejar/implementar a expansão da oferta de energia elétrica, o Governo Fernando Henrique, com uma gerência da crise extremamente eficiente, evitou que houvesse uma recessão no país, sendo que, naquele ano, o PIB teve um crescimento de 1,3 %, apesar de um racionamento com meta de redução de 25% do consumo. Há quem diga que o racionamento trouxe benefícios para o País, devido ao enorme ganho em eficiência energética.
O Governo Lula também teve que enfrentar uma grande crise no seu penúltimo ano de Governo, mas só que provocada pelo colapso do sistema financeiro mundial, sendo que também teve competência para lidar com o problema com o país tendo uma recessão em 2009 (PIB de -0,2%) bem menor que a da grande maioria dos países e se projetando para 2010 um crescimento recorde da nossa economia.
O Governo Fernando Henrique deixou para o Governo Lula um conjunto de obras de geração de energia elétrica, parte em operação parte em construção ou programadas para serem construídas, que possibilitaram ao Governo Lula governar nos primeiros 4 anos sem nenhum risco de outro apagão. Aliás, a primeira obra que o Governo Lula viria a agregar de fato ao parque gerador brasileiro só ocorreria a partir de 2009, resultado do 1º Leilão de novas usinas, realizado em 16 de dezembro de 2005.
Agora é a vez do Governo Lula deixar para o seu sucessor um conjunto de obras que foram contratadas pelo seu Governo. Aliás, o Plano Decenal de Expansão de Energia – PDE 2019 mostra que já estão contratadas 100% das obras necessárias para o atendimento aos aumentos de consumo de energia elétrica para o período do mandato do próximo Presidente da República (2011-2014).
Com a herança recebida do Governo Fernando Henrique e com a manutenção e consolidação pelo Governo Lula do mercado livre, a energia elétrica no Brasil no período de 2003 a 2006 (primeiro mandato do Governo Lula) passou a ser um diferencial para as indústrias brasileiras com preços inferiores aos praticados nos principais países das indústrias concorrentes às nossas.
O próximo Governo, infelizmente, não irá receber uma herança equivalente, muito pelo contrário. Atualmente, a energia elétrica no país representa, pelo seu alto custo, um desestímulo para a indústria nacional com preço superior aos praticados para as indústrias concorrentes de quase todos os outros países do mundo.
Em relação à expansão da oferta de energia elétrica que o próximo Governo irá herdar do Governo Lula, a situação preocupa ainda mais, estando mostrada no Quadro abaixo a expansão da oferta de energia por fonte para o período de 2011 a 2014:
| FONTE |
ACRÉSCIMO DE POTÊNCIA |
| MW |
% |
| FÓSSIL |
9.597 |
44,8% |
| HIDRO (incluindo PCH) |
7.535 |
35,2% |
| BIOMASSA |
1.691 |
7,9% |
| EÓLICA |
2.605 |
12,2% |
| TOTAL |
21.428 |
100,0% |
Fonte: EPE – PDE 2010-2019
A capacidade instalada aumentará em 21.428 MW, sendo que, deste total, cerca de 45% serão de fontes não renováveis e somente 35% de hidrelétricas, fonte de menor custo de energia. Portanto, a matriz de geração de energia elétrica, em processo de agregação ao parque gerador, tem forte participação de fontes não renováveis. Aproximadamente 60% dessas fontes são de Usinas Termelétricas a óleo combustível, cujo custo para gerar energia chega a mais de R$400,00/MWh.
O legado do Governo Lula, em termos de abastecimento de energia elétrica para o país, poderá representar um tremendo fardo para o próximo Presidente da República. O vencedor nas urnas terá que encontrar uma solução viável para prover o “oxigênio” que a indústria nacional precisa para continuar competindo no mercado mundial, de modo a evitar que o crescimento econômico de 2010 não se transforme em uma simples “bolha” e tenhamos um revés no nosso tão almejado caminho de nos tornarmos a 5ª potência econômica mundial.
Na próxima semana estaremos comentando o porquê do substancial aumento do preço da energia elétrica no Brasil durante o Governo Lula.